A saúde e as estações do ano

Para quem conhece o termo homeostase, a ideia de que nosso organismo se adapta às mudanças no ambiente externo, buscando o equilíbrio interno, não é nova. Logo, se existir mudança de estação e se houverem condições favoráveis, nosso corpo e nossa mente também se organizarão para se conectarem com as novas fontes de energia da atual estação.

Segundo o Ayurveda e a Medicina Tradicional Chinesa, nosso relógio biológico é conectado e influenciado pelos fenômenos da natureza. O fato de sentirmos frio no inverno pode parecer trivial, já que sentimos essa influência desde pequenos, mas neste processo existem vários processos metabólicos e nervosos ocorrendo para que você procure se agasalhar. Esse é um simples exemplo de como as forças externas da natureza, que se evidenciam nas estações do ano, fazem com que naturalmente reavaliemos nossos hábitos e percebamos nossas novas particularidades. Homeostase é um processo dinâmico e constante de manutenção do organismo para se manter em equilíbrio diante das alterações do ambiente. As medicinas tradicionais como o Ayurveda e a Medicina Chinesa, as filosofias orientais como o Yoga e o Taoísmo e muitos outros sistemas médicos e filosóficos, que consideram o corpo e a mente como partes indissociáveis do indivíduo, acreditam na busca pelo equilíbrio para se obter saúde ou plenitude espiritual.
Segundo essas medicinas, a mudança de hábitos adequada à estação atual pode nos trazer maior saúde e vitalidade, melhorando nossa imunidade, e nos permite que eliminemos corretamente as toxinas.

Recolher para transformar

O Brasil tem vivido o pior momento da pandemia desde seu início no país. Isso nos obriga a passarmos muito mais tempo em casa do que jamais antes. São tempos extremamente difíceis para todos, mas também que nos propiciam um profundo mergulho em si, que nos oferecem uma oportunidade para olhar para dentro e restaurar aquilo que se encontra em disfunção (podem ser questões emocionais guardadas há muito tempo, aspectos mentais nunca observados ou dores físicas por passarmos muito tempo sentados na frente do computador). A importância de olhar para dentro se dá ainda na maneira como podemos mudar aquela rotina que não nos serve mais e ainda compartilhar com toda a humanidade a nossa mudança, que ocorre de dentro para fora. Esse não é um processo fácil, é possível que você precise de um auxílio de algum profissional, como um naturólogo, um acupunturista, um médico integrativo, formados para tratar corpo e mente como um todo.

Talvez, em casa, nas noites frias, você sinta a importância de reduzir o consumo de alimentos frios, sem vitalidade ou que já foram congelados. E percebe que essa mudança permite uma melhor digestão, melhor fluxo intestinal, que consequentemente, gera uma melhor digestão e melhor fluxo dos pensamentos.
Além disso, você percebe o impacto no seu microcosmo. Talvez com o fato de você estar se alimentando com alimentos mais frescos, preparados mornos e com mais vitalidade, outras pessoas na sua casa passem a se alimentar assim também, melhorando sua saúde de acordo com o ambiente, afinal vocês estão passando mais tempo juntos do que nunca.
Assim, não só mudamos de dentro para fora, afetando nossos familiares e pessoas que amamos, mas também afetamos o comércio local. Talvez aquele vendedor da feira – que sempre estava lá, mas que você nunca dava atenção – passe a compor parte de sua renda pelos legumes semanais que você tem passado a consumir; e não se alimentar mais de congelados e comidas prontas passe a reduzir o estímulo à produção de produtos alimentícios que geram tanto lixo e exigem do nosso meio ambiente.

É importante recolher.

Olhar para dentro.

Perceber o que tem que ser mudado e saber que isso mudará algo ou alguém.

Outono, recolhimento e meditação

É o outono a estação que oferece a melhor expressão do recolhimento. Estávamos em constante movimento, produzido pelo calor e pela luz do Sol. O tempo quente e a vibração expansiva do verão começam a ser substituídos por noites frias. Os dias ensolarados, cheios de distração, e tardes chuvosas, barulhentas, que vivíamos em São Paulo, começam a ficar mais secos (nesse momento, você, com seu naturólogo, percebeu a necessidade de se hidratar mais, fazer escalda-pés e passar óleo medicado no corpo). O céu da tarde fica azul, sem muitas ou quaisquer nuvens; a noite, fria.

Fria, seca e com ventos, como se o mundo externo te empurrasse para dentro de casa. E o que fazer em casa? Meditar.
A meditação é um processo profundo de sustentação da atenção para reduzir o fluxo de pensamentos. No momento em que você sustenta a atenção em um objeto, tudo fica mais claro. Você permanece firme com o presente. Não existem identificações errôneas com pensamentos, nem reações aos conteúdos emocionais que surgem, não existe a autossabotagem. Você apenas é. E flui com esse ser que observa a realidade, impermanente como ela é, rica em detalhes, complexa e una.

Não existe um propósito na meditação que não tenha a ver com a união. Quando meditamos, conhecemos o nosso corpo, conhecemos a nossa mente, um pouco mais a cada dia, e percebemos que somos tão humanos quanto qualquer um. Percebemos a unidade que nos mantém como espécie, somos seres unidos em constante transformação. Somos únicos, mas temos a mesma essência.

E se o outono é a estação de recolher e preparar corpo-mente para a profunda imersão interna que é o inverno, então meditamos para nos conhecermos e
transformarmos de dentro para fora. Que a nossa transformação interna seja parte do movimento de transformação da nossa saúde, do mundo e da humanidade.

Outono, tempo de recolher.

Abaixo você encontra um exercício de meditação com foco na respiração. Não há melhor hora do dia para praticar, apenas que seja um horário que te faça permanecer, sem grandes distratores:

 

 

Bruna Verzili
Naturóloga | Instrutora de Mindfulness e Yoga